O
significado de um passeio
para o idoso institucionalizado.
"Que bom, a gente vai ter
o que contar! ", foi a exclamação
que ouvi de um idoso de 90
anos, residente do Lar Madre
Regina, que eu conduzia no
meu carro, ao sair para um
passeio pela cidade de São
Paulo.
Sou pedagoga e trabalho como
voluntária desde fevereiro
de 2002 nesta instituição.
Ao longo deste período tenho
desenvolvido várias atividades
com os idosos: dança sênior,
rodas de leituras, jogos,
pintura com lápis aquarela,
quebra-cabeças, resgate de
estórias de vida e passeios.
Estas saídas são realizadas
uma vez por mês.
Quando iniciei esta atividade,
há 4 anos, fiz uma pesquisa
de opinião sobre as preferências.
Para minha surpresa, o lugar
a ser visitado pouco importava.
O importante era sair! Para
a maioria das pessoas essa
é a única oportunidade para
uma atividade cultural e de
lazer pois muitos só saem
para consultas médicas. A
instituição tem um veículo
para o transporte de 7 pessoas.
Muitas vezes ponho meu carro
à disposição para que outras
também possam ir. Quando vamos
à museus sempre agendo visitas
guiadas pois são muito mais
interessantes e instrutivas.
Temos revisitado São Paulo:
o centro, onde outrora muitos
circularam, Pinacoteca, Museu
do Ipiranga, Horto Florestal,
Museu do Imigrante, Museu
de Arte Sacra, Parque do Ibirapuera,
Teatro Municipal e tantos
outros lugares. Nos finais
de ano nosso destino tem sido
os shoppings para observar
os arranjos de Natal, os presépios,
as vitrines.
O dia do passeio é esperado,
e percebo que vestem suas
melhores roupas. Tudo chama
a atenção deles na rua: os
outdoors, os transeuntes,
o cheiro dos lugares. Poderia
dizer que são estrangeiros
na sua própria cidade. Quando
retornam, comem com mais apetite,
alegres e falantes contam
as novidades para os que ficaram
e para os funcionários da
instituição; agradecem muito
a oportunidade que tiveram
de passear.
Na maioria das vezes quando
voltamos peço que digam uma
palavra que sintetize o que
sentiram naquelas horas em
que estiveram fora. As palavras
são sempre muito positivas:
lindo, um dia inesquecível,
alegria, graças à Deus.
Uma residente
que quando a convidei pela
primeira vez, estava relutante,
me disse que não estava acostumada
a sair, depois tornou-se uma
das mais interessadas nos
passeios. Sua palavra era
"leve" explicando-me
que aquele dia estava sentindo
um peso no peito desde manhã
e que agora tudo tinha passado.
"Estou leve" disse sorrindo.
Todos os passeios são registrados
por meio de fotos e na semana
seguinte ao passeio, elas
são expostas num quadro na
Instituição. Desta forma,
os residentes sentem-se valorizados
porque aparecem nas fotografias(muitos
não são fotografados há muito
tempo) e podem compartilhar
com seus companheiros de residência
o que viram e fizeram quando
saíram.
Em agosto fomos ao Museu dos
Transportes Públicos Gaetano
Ferolla, no bairro do Canindé.
Este passeio foi sugerido
por uma das residentes que
leu no jornal que a instituição
é assinante, um artigo sobre
o museu. Ela recortou-o e
me entregou, achando que seria
um lugar de interesse para
todos. O Museu conta a história
da cidade da maior cidade
do país em uma época em que
o progresso andava no ritmo
dos bondes. Nossos visitantes
puderam rever o "bonde aberto",
o "bonde camarão" e contaram
suas lembranças de quando
usavam este transporte pela
cidade. Em Setembro fomos
assistir aos jogos do Sesi
em Cocaia, em novembro visitamos
o Museu do Imigrante e em
dezembro fomos ao Shopping
Aricanduva ver os enfeites
de Natal. Uma das senhoras
comentava com outra que à
noite quando estivesse deitada
poderia se recordar dos arranjos
de Natal que tinha visto durante
o passeio, e da alegria que
tinha sentido dos momentos
desfrutados daquela manhã.
Ressalto a importância e o
significado dos passeios pela
cidade para estes residentes.
Já na semana seguinte à uma
saída, me procuram e perguntam:
"Quando vai ter passeio?"
ou "Aonde iremos no próximo
passeio? "
Rita Duarte do Amaral
Pedagoga
silveiramaral@uol.com.br