Boletim 16
Maio 2007


O significado de um passeio para o idoso institucionalizado.


"Que bom, a gente vai ter o que contar! ", foi a exclamação que ouvi de um idoso de 90 anos, residente do Lar Madre Regina, que eu conduzia no meu carro, ao sair para um passeio pela cidade de São Paulo.


Sou pedagoga e trabalho como voluntária desde fevereiro de 2002 nesta instituição. Ao longo deste período tenho desenvolvido várias atividades com os idosos: dança sênior, rodas de leituras, jogos, pintura com lápis aquarela, quebra-cabeças, resgate de estórias de vida e passeios. Estas saídas são realizadas uma vez por mês.


Quando iniciei esta atividade, há 4 anos, fiz uma pesquisa de opinião sobre as preferências. Para minha surpresa, o lugar a ser visitado pouco importava. O importante era sair! Para a maioria das pessoas essa é a única oportunidade para uma atividade cultural e de lazer pois muitos só saem para consultas médicas. A instituição tem um veículo para o transporte de 7 pessoas. Muitas vezes ponho meu carro à disposição para que outras também possam ir. Quando vamos à museus sempre agendo visitas guiadas pois são muito mais interessantes e instrutivas. Temos revisitado São Paulo: o centro, onde outrora muitos circularam, Pinacoteca, Museu do Ipiranga, Horto Florestal, Museu do Imigrante, Museu de Arte Sacra, Parque do Ibirapuera, Teatro Municipal e tantos outros lugares. Nos finais de ano nosso destino tem sido os shoppings para observar os arranjos de Natal, os presépios, as vitrines.


O dia do passeio é esperado, e percebo que vestem suas melhores roupas. Tudo chama a atenção deles na rua: os outdoors, os transeuntes, o cheiro dos lugares. Poderia dizer que são estrangeiros na sua própria cidade. Quando retornam, comem com mais apetite, alegres e falantes contam as novidades para os que ficaram e para os funcionários da instituição; agradecem muito a oportunidade que tiveram de passear.
Na maioria das vezes quando voltamos peço que digam uma palavra que sintetize o que sentiram naquelas horas em que estiveram fora. As palavras são sempre muito positivas: lindo, um dia inesquecível, alegria, graças à Deus.

Uma residente que quando a convidei pela primeira vez, estava relutante, me disse que não estava acostumada a sair, depois tornou-se uma das mais interessadas nos passeios. Sua palavra era "leve" explicando-me que aquele dia estava sentindo um peso no peito desde manhã e que agora tudo tinha passado. "Estou leve" disse sorrindo.


Todos os passeios são registrados por meio de fotos e na semana seguinte ao passeio, elas são expostas num quadro na Instituição. Desta forma, os residentes sentem-se valorizados porque aparecem nas fotografias(muitos não são fotografados há muito tempo) e podem compartilhar com seus companheiros de residência o que viram e fizeram quando saíram.


Em agosto fomos ao Museu dos Transportes Públicos Gaetano Ferolla, no bairro do Canindé. Este passeio foi sugerido por uma das residentes que leu no jornal que a instituição é assinante, um artigo sobre o museu. Ela recortou-o e me entregou, achando que seria um lugar de interesse para todos. O Museu conta a história da cidade da maior cidade do país em uma época em que o progresso andava no ritmo dos bondes. Nossos visitantes puderam rever o "bonde aberto", o "bonde camarão" e contaram suas lembranças de quando usavam este transporte pela cidade. Em Setembro fomos assistir aos jogos do Sesi em Cocaia, em novembro visitamos o Museu do Imigrante e em dezembro fomos ao Shopping Aricanduva ver os enfeites de Natal. Uma das senhoras comentava com outra que à noite quando estivesse deitada poderia se recordar dos arranjos de Natal que tinha visto durante o passeio, e da alegria que tinha sentido dos momentos desfrutados daquela manhã.


Ressalto a importância e o significado dos passeios pela cidade para estes residentes. Já na semana seguinte à uma saída, me procuram e perguntam: "Quando vai ter passeio?" ou "Aonde iremos no próximo passeio? "

Rita Duarte do Amaral
Pedagoga
silveiramaral@uol.com.br