Uma missão de amor ao próximo
Desde pequena, Francisca Amaral, ou somente Amaral - como é conhecida entre os companheiros do Hospital Geral de Itapevi - tinha o desejo de fazer alguma coisa pelas pessoas que estavam muito distantes e precisavam de ajuda. Sempre ao ler a revista Sem Fronteiras esse sentimento aflorava, com uma vontade cada vez maior de ajudar a África em virtude de todas as necessidades do continente negro.
O chamado para a vida religiosa aconteceu e ela juntou-se a uma congregação missionária, as Irmãs de Santa Terezinha. Ela estava morando em Bragança (PA), atuando em educação e evangelização em sua Congregação quando ficou sabendo que sua ordem estava precisando de voluntários dispostos a ir para Angola. O sonho antigo de doar seu tempo para o trabalho missionário estava prestes a se tornar realidade.
Assim, entre os anos de 1990 e 1999 ela esteve em missão naquele país, atuando através dessa Congregação religiosa. Seu objetivo era continuar trabalhando com educação e evangelização, papel que vinha desempenhando bem até 1992, quando intensificou-se a guerra civil, sangrento conflito matou mais de 500 mil pessoas e durou até 2002.
Amaral trabalhava nas sanzalas, casas que concentravam muitas pessoas que precisavam de ajuda. Após o começo do conflito, esses locais ficaram fechados, as escolas destruídas e as cidades em frangalhos.
Na época em que a guerra atingiu grandes proporções, as pessoas feridas procuravam a casa das missionárias para pedir ajuda ou simplesmente fugir. Os dois lados inimigos respeitavam esse espaço, pois elas auxiliavam pessoas de ambos os ‘partidos’, como eles chamavam as frentes.
“Em muitas situações, eu era obrigada a me enfurnar em buracos feitos no chão, uma espécie de casamata, coberta por madeira e sacos de areia. Isso nos protegia dos tiros e bombardeios”, conta.
O toque de recolher era às 18h, do contrário, os guerrilheiros atiravam ao sinal de qualquer movimento. E certa vez, Amaral precisou desrespeitá-lo, pois uma menina refugiada chegou à missão e precisava de ajuda. Ela e uma colega a levaram a pé a um posto médico, apenas segurando uma bandeira branca nas mãos. “Naquele dia sentimos a presença de Deus, o que nos deu força para continuar”, lembra.
Nos anos em que passou lá, Amaral testemunhou coisas horríveis, como pessoas que morriam de fome e desnutrição. Ela conta que recebeu a visita de uma senhora desnutrida e com duas crianças no colo, igualmente desnutridas. Ausentou-se por um breve instante para buscar um prato de comida e quando voltou, notou que as crianças estavam sem vida. “Isso nos leva a pensar o quanto temos que dar valor e agradecer o que temos”, confessa.
Além do conflito em si, havia também o perigo das minas. Angola é o país que mais possui esse tipo de arma enterrada em seu território, o que já vitimou mais de 100 mil pessoas.
Àquela época a ONU possuía uma equipe que cuidava da retirada das minas para que a população pudesse voltar a seus lares no campo. Mas havia uma grande parte da população que não conseguia esperar pelo desarmamento dos campos e, na ansiedade de voltar a seu lugar de origem, acabou perdendo a vida ou sendo mutilada.
Ela conta que um dia estava dirigindo o carro da missão quando passou por cima de uma mina, que não disparou, e acabou explodindo o carro que estava atrás do dela, quando esse passou por cima da mina. A missionária foi detida para interrogatório, pois os guerrilheiros achavam que ela sabia os segredos das minas, levantando suspeitas sobre sua neutralidade. “Fiquei presa o dia todo, mas sentia a presença de Deus, como se ele estivesse lá para me ajudar”, lembra.
No meio do conflito, Amaral aprendeu que as pessoas são muito capazes de prestar solidariedade umas às outras. Mesmo sem nada, elas eram capazes de partilhar e se abrir ao novo. “Hoje sou grata a tudo o que acontece em minha vida. Com a morte bem perto de nós, aprendemos a valorizar cada momento”, conclui.
Ao retornar ao Brasil, a missionária cursou Teologia e, posteriormente, realizou uma pós-graduação em Liturgia. Desde fevereiro de 2006 ela faz parte do quadro de colaboradores do HGI, sendo a responsável pelo setor de Humanização. Lá, realiza projetos sociais voltados para comunidade e paciente, como “Conectados com o HGI”, “Cuidar de quem Cuida” e “Tecendo a vida”, entre outros.